Transporte e sustentabilidade em SP

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Reflexões da Marília
” Confesso que morro de medo se subir numa bicicleta. Claro que aprendi quando eu era criança; andava relativamente bastante nas férias e tal. Mas a última vez que isto aconteceu foi mais ou menos no ano 2000. Ou antes disso. Quer dizer, faz pelo menos uns dez (DEZ) anos que não ando de bike. Ao mesmo tempo, minha família nunca teve a cultura de andar de bike como meio de transporte. Bike era lazer. Isto certamente deve ter influenciado minha falta de contato com bikes. Fato é que hoje tenho a maior vergonha só de pensar na possibilidade de fazer papelão sobre duas rodas. O pior é que moto não me assusta. Alguém entende?😛

Quando estive na França no começo do ano poderia ter usado muitas bikes. Em Lyon, por exemplo, estava com um grupo de estudantes que, como qualquer grupo de estudantes franceses em Lyon, ia de bike pra todo canto. Muitas cidades da França tem um sistema muito massa de bikes públicas: muitas bikes ficam estacionadas travadas num bicicletário a céu aberto, em ruas. Você coloca o cartão de crédito, retira a bike. Depois coloca de novo pra devolver, digita sua senha e o valor do tempo que você usou é debitado. Como trechos curtos não são debitados, é super em conta usar bike neste sistema. Na Holanda também existe este sistema e eu ainda tinha gente pra me emprestar bike. Na universidade onde faço mestrado, na cidade onde mora meu namorado, também há ciclovia (ao redor da universidade e trecho do centro do distrito). No fim das contas eu acabo fazendo tudo a pé e levo quem está comigo a fazer tudo a pé também.

Este ano eu decidi que volto a andar de bike. Como meio de transporte. No final do ano ou no ano que vem quem sabe compro uma pra mim. Minha mãe já está aterrorizada, afinal, andar de bike em São Paulo não é bolinho. No Brasil, em geral, há um discurso dominante de que bicicleta é lazer. A atual gestão DEM/PSDB/aliados da prefeitura de São Paulo reproduz este discurso e o legitima quando abre uma ciclofaixa em importantes avenidas somente aos finais de semana (se é que são todos os finais de semana) e proíbe bicicletas em certas outras avenidas e pontes. Por este motivo, ciclistas são motivo de “dor-de-cabeça” para a maioria dos motoristas, ao invés de serem respeitados. No Código de Trânsito, porém, os veículos de tração humana são os veículos que devem ter maior prioridade nas ruas, seguidos pelos de tração animal, depois motocicletas e ônibus. Carros e caminhões estão lá no fim da lista de prioridades. E é com eles que é gasta a maior parte do dinheiro público investido em soluções para transporte. Alguém acha isto racional?

Este ano vendi meu carro. Sem saber andar de bike, sem nem ter decidido voltar a andar de bike (ainda, na época), vendi meu carro. Enfrentei olhares tortos de muita gente. Nunca fui mais feliz. Meu carro, um carro popular de motor 1.0 flex que eu só abastecia com álcool, me custava todo ano um seguro de mais de R$2,000 mais estacionamento, impostos, revisões/mecânico, combustível, etc. Comecei a achar ridículo demais investir tanto dinheiro para que UMA pessoa (no caso, eu) tivesse suas necessidades de transporte atendidas imediatamente. 

 
Quando morei sozinha no interior, muitas vezes o carro era uma mão na roda, sim: trabalhava de dia, estudava à noite, tinha que resolver tudo por minha conta num tempo muito curto entre estas atividades, o transporte público da cidade era umas oito vezes PIOR que o de São Paulo (juro; além de custar o mesmo preço sem possibilidade de desconto pra estudante universitário, o que eu sempre achei um absurdo), as distâncias eram muito maiores (SP é grande, mas resolve-se tudo no mesmo bairro ou em bairros próximos, nesta cidade era preciso atravessar regiões). Ao voltar a morar em Sampa me peguei deixando o carro em casa repetidas vezes, para não ter que me preocupar com estacionamento, combustível, etc. Percebi que era muito mais feliz quando saía de casa com 1h de antecedência para pegar ônibus e metrô (além de dependendo do horário chegar mais rápido) do que quando saía com 1h de antecedência de carro pra dar tempo de achar lugar pra estacionar antes do compromisso. Sem contar que me irritou demais ser obrigada por lei a dar dinheiro pra uma empresa privada colocar um adesivo verde no MEU carro, que era relativamente novo-flex-álcool-sempre-dava-caronas, sob o pretexto de “melhorar a qualidade do ar” enquanto meu dinheiro de imposto era gasto não para corredores de ônibus, metrô e ciclovias mas para uma obra ridícula na Marginal.

Claro, devo contar que moro num bairro relativamente central, há bastante linhas de ônibus, alguns metrôs mais ou menos perto e alguns amigos têm carro e me dão caronas. De qualquer forma, me livrar do carro foi um alívio. Não ter carro me poupa muitas dores de cabeça. Mesmo morando em um bairro de intermináveis ladeiras (bike em São Paulo nunca será a mesma coisa que bike em Amsterdã, por exemplo) tenho me animado com a idéia de voltar a andar de bicicleta. A cada dia reparo em mais e mais ciclistas pelas ruas da cidade. Elas (e eles) me encorajam, pela simples existência e prudência. Não vejo em São Paulo ciclistas infringindo regras básicas de trânsito – aqui é uma questão de sobrevivência. Vejo, sim, motoristas de carro e ônibus atropelando ciclistas, reclamando quando eles seguem as regras de trânsito e ainda usando aquele adesivo ridículo daquela campanha ridícula da seguradora Porto Seguro que tem como lema um “trânsito melhor”. Melhor pra quem, cara pálida? Pra ciclistas e pedestres que não contratam seguros? Ou pra motoristas de veículos particulares que geram lucro para este tipo de empresa? [uma vez escrevi no blog da Lola um Guest Post que falava deste mesmo tipo de interesse das empresas pretensamente investidoras de ações humanitárias/sociais – no caso ciências e academia – em beneficiar seus consumidores única e exclusivamente; este texto está aqui.]

As associações, ONGs e campanhas de ciclistas têm me deixado mais confiante também. Sigo alguns blogs de ciclismo-transporte (Pedalante, Pedalinas, Apocalipse Motorizado). Quero perder o medo de subir numa bike e, mais, quero perder o medo que o discurso senso-comum gera na gente, de que andar de bike em SP é suicídio. Tenho lido um pouco sobre Ghost Bikes (Bicicletas Fantasma), que são bicicletas instaladas em cidades do mundo inteiro em memória de ciclistas que morreram atropelados. Em Sampa mesmo tem algumas e eu já doei uma graninha que tinha guardada para financiar um documentário de uma jovem sobre estas manifestações de resistência na luta por um transporte mais humano. Recomendo, aliás, que quem tem cartão de crédito internacional conheça e apóie este projeto também (clique aqui para saber mais). Um grande amigo (este Rodrigo, do rodrigo.utopia.org.br) está no Canadá trabalhando para um empresa que faz MUDANÇAS de bicileta! Ele passa o dia pedalando, levando fogões, geladeiras, sofás e afins de um lugar pro outro. É mais barato, mais ecológico e muito mais humano do que um caminhão-baú. Além de interferir bem menos no trânsito das ruas. Talvez eu me mude este ano e tenho pensado demais em chamar alguém pra levar a mudança de bike. Será que encontro?

Até o fim do ano vocês me verão numa bicicleta. E tenho dito.”

Balada das meninas de bicicleta*

Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint’anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta – essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.

* Vinicius de Moraes

………….

Manifesto dos Invisíveis

Motorista, o que você faria se dissessem que você só deve dirigir em poucas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde não existisse esse tipo de via, você não poderia transitar? Para nós, cidadãos que já utilizamos a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento quando ouvimos que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. (…)  Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrar a bicicleta pela calçada? Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados. Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. Às leis de trânsito, à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

(…)Ao invés de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas. A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa: “só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, ao invés de tomar a iniciativa para construir uma solução.
Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.
Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana, do que acreditar que a solução dos nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para trabalhar juntos.
A rua é de todos. A cidade também.

Nós, que também somos o trânsito.

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4 Comentários

Arquivado em arte, bicicletas, filosofices, leituras, poesia, relatos, texto

4 Respostas para “Transporte e sustentabilidade em SP

  1. Pingback: Mulheres e bicicletas « Pedalinas

  2. Olá, conheça a Horta Pronta Online, a Horta que já vem pronta,

    http://sites.google.com/site/hortaprontaonline/

    Grato, Eliel.

  3. Ótimo post.

    Parabéns pelo blog

  4. Que post legal e bem feito.
    Confesso que no começo deu preguiça de ler tudo, mas depois valeu a pena.

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