Reflexões sobre os insultos de raiz

#fimdaviolenciacontramulher :

Abaixo a reflexão da Dri, sobre insultos de raiz:

“(Recentemente ouvi alguns insultos no trânsito, como ciclista e como pedestre, e fiquei me questionando em que tipo de realidade vivem essas pessoas que acham normal esse ato de agressão gratuita, que por vezes mais parece uma demonstração angustiada e, sobretudo, distorcida de sua própria impotência.(…)

O insulto de raiz é uma prática lúdico-terapêutica, que consiste em descontar as frustrações da sua vida ou em expressar seu ódio ao outro, ainda que um completo desconhecido, a partir da segurança de seu veículo motorizado. Privilegia-se aqui a ação ágil, gratuita e impune. Os mais ousados, normalmente em bando, chegam a colocar sua cabeça para fora do veículo, com um ganho significativo nos quesitos intimidação e projeção de voz. Aos mais tímidos é permitido o insulto sem contato visual, sendo ainda possível recorrer à proteção das janelas com insulfilm.

A prática, que não vingou nas cidades de interior – onde o número reduzido de habitantes e embaraçosos encontros no coreto comprometiam a impunidade –, encontrava nas regiões de urbanização intensa seu local privilegiado. Encontrava. O insulto de raiz, que antes corria de pés descalços pelas ruas, ricocheteando nas velhinhas que insistem em morar na calçada oposta ao mercado, agora se vê perigosamente limitado pelo crescimento urbano. A cidade já não oferece mais um sítio totalmente seguro para essa prática.

Com as ruas cheias de carros são cada vez mais frequentes os encontros com os insultados no farol fechado ou na próxima esquina obstruída, comprometendo a inconsequência do ato. E mais: aumenta significativamente o número de cidadãos que não reconhecem nessa prática seu valor tradicional – ah, plebe ignóbil! -, e se acham no direito de reclamar quando são vitimados por um insulto de raiz. Proliferam, assim, os conflitos cotidianos, e a prática, até então inofensiva, passa a oferecer riscos ao insultador. Por vezes ele é constrangido a assumir a autoria e mesmo responder por suas palavras.

Barrados por violentas convenções de trânsito – o que são os semáforos se não a demonstração do braço coercitivo do Estado em sua atividade constante de desmanche do patrimônio cultural? – e pela coincidência – que outro motivo poderia explicar as ruas que eu uso sempre estarem lotadas com outros carros exatamente no horário que eu preciso? – os adeptos ao insulto de raiz se encontram em uma situação insustentável. A que tipo de humilhação ainda se verão expostos aqueles que tem coragem de preservar essa prática? Até quando o Estado manterá sua postura passiva, sem desenvolver um projeto sério para viabilizar a manutenção dessa tradição?

Até que tenhamos as respostas para essas perguntas, acredito que a prática do insulto de raiz continuará cada vez mais arriscada. Por isso deixo aqui minha solidariedade aos que ainda tem coragem de lutar por seu direito à cultura e um conselho singelo: invistam na cara de pau, pois fica muito feio não estar preparado ou fingir que fala no celular, desligado, quando aquela garota ou aquela senhorinha batem no vidro para pedir uma satisfação.”

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3 Comentários

Arquivado em bicicletas, Memória, movimentos sociais, mulheres, protestos, relatos

3 Respostas para “Reflexões sobre os insultos de raiz

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