Ogros

(…) Ogros facilmente identificáveis estão entre os adolescentes (do tipo de adolescência que vai até os 22). É possível que só os mais velhos sejam capazes de identificá-los, porque se sentem incomodados pelos ogros auto-centrados.

Ogros não percebem quando e que incomodam os outros. Pensam que estão sozinhos no mundo. Falam alto demais, ouvem música que só eles suportam em locais públicos, pisam com o pé chato e a coluna curvada, mastigam e engolem ruidosamente, respiram com dificuldade, operam maçanetas de portas como se fossem instrumentos musicais, são incapazes de respeitar o silêncio ou sono dos outros. Escolhem com querem interagir e não veem problema algum em ignorar completamente um colega de quarto. Encolhem-se numa espécie de autismo seletivo.

Não aprenderam a dividir porque nunca tiveram irmãos. Não aprenderam a preservar, porque os pais adotaram o hábito de comprar outro objeto que substituísse o brinquedo de plástico quebrado, a roupa de marca manchada, o eletro-eletrônico obsoleto. Não aprenderam a colecionar e trocar porque o tempo desvaloriza seus brinquedinhos.

São urbanos e mal instruídos para a vida autônoma. Não sabem cozinhar, separar roupa pra lavar e morreriam se tivessem que manusear uma vassoura em prol do coletivo.

Não jogam bola, preferem videogame. Não passeiam no parque, mas no shopping. Não sentam lá fora, mas no ar condicionado. Preferem seriados a livros. Não conseguem se concentrar porque foram educados pela televisão. Não sabem o que querem da vida porque o leque de opções é amplo. Não procuram descobrir a si mesmos, porque se ocupam em saciar vontades momentâneas que aparecem em forma de cursos, religiões e bens de consumo. Não são calmos nem seguros de si, muito menos interessados no outro.


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