Sou Guarani Kaiowa

Leia o texto da Tarsila:

“Eu sou agora Guarani Kaiowá. Sou porque sou humana, porque escolhi dar vazão à dor que senti ao ler a sua declaração de intenção de suicídio. Sou porque falta amor tanto aqui em São Paulo quanto no MS, e amor é tão precioso quanto comida, que também falta bastante. Longe dos olhos das multidões as atrocidades correm mais soltas: porque se vive um mercantilismo selvagem onde os olhos da Declaração de Direitos Humanos não alcançam. Sou porque favelas são queimadas e ninguém vê, sou porque a Justiça brasileira mata diariamente por omissão, e ninguém vê, e quem vê não sabe como agir.

Eu sou uma delas. Sou Guarani Kaiowá porque tive a honra de conhecer o Santuário dos Pajés (obrigado Izabele!) e entendi que não, não são boatos de gente revoltada com o sistema o que se ouve falar sobre atrocidades como assassinatos, tortura, fome, omissão – que sempre existiram, verdade, mas na nossa vida na “bolha” achamos que são exceções execráveis, aberrações isoladas em meio a um mundo iluminista. Não são. Os fatos são averiguáveis, as violações aos direitos humanos ocorrem a rodo no país, mas tudo é tornado complicado quando existe poder e grana pesada no meio.

Sou Guarani Kaiowá porque me dói observar como os relacionamentos se rompem e corrompem com a influência do dinheiro. Entendi que sim, outros modos de vida, mais antigos, ainda detêm uma sabedoria que não está nos livros, uma sabedoria relacional. Amor mesmo, de graça, sem reservas, pode-se dizer.

Sou Guarani Kaiowá principalmente porque acredito no direito de viver e morrer com dignidade; de honrar a terra e os antepassados da forma que estiver ao alcance, ainda que seja através da derrota. Mas mesmo acreditando nisso, sigo profundamente triste. Lamento por antecipação a perda de um povo, lamento a violência sistêmica. Lamento a impotência deles, e a nossa. Estou de luto, antes mesmo do suicídio coletivo, estou de luto simplesmente por estar alerta.

Sou Guarani Kaiowá porque sinto. Porque ouso conhecer por outras formas além do pensamento: não quero que esse povo seja apenas mais uma abstração teórica dentre as muitas que lidamos no dia a dia. Não mais uma guerra abstrata no oriente médio, não mais uma miséria abstrata na África. Não. Isso tudo está acontecendo relativamente debaixo de nossos narizes, e não quero uma memória vazia de um passado que não me tocou. O mínimo que posso fazer a distância é querer dar um abraço.

E na ausência presencial deles, vou procurar outros abraços. Abraços de compreensão da devastação e da finitude humana, e do amor e da esperança que sempre teimam em surgir por debaixo destas”

 

leia mais tb:

 

Mapa das terras guarani/kaiowá.
Algumas das áreas em conflito:
1 – Arroio Korá – TI com homologação suspensa pelo STF em 2009 por liminar – até hoje não julgada. Em protesto, o grupo ocupou em agosto parte da terra onde os fazendeiros ainda estão instalados;
2 – Potrero Guasu – TI já declarada, faltam providências para indenizações etc. Indígenas retomaram no início de setembro parte da área aind

a ocupada por fazendeiros;
3 – Mbarakay/Pyelito Kue – é onde está o grupo ameaçado de despejo que divulgou a recente carta. A localização no mapa é aproximada, eles estão escondidos em áreas de mata, para fugir dos ataques de pistoleiros;
4 – Guaiviry – é onde foi morto Nisio Gomes, em novembro de 2011. Houve novas ameaças recentes por ali;
5 – Paso Piraju – outra área ocupada há quase dez anos. O grupo também está ameaçado por uma ordem de despejo.
E por aí vai…
…….
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.-.-.-.

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Arquivado em arte, Memória, movimentos sociais, mulheres, protestos, texto

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