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Bicicleta é meio de transporte

Como o Júlio, também não me identifico como um cicloativista. Sou o que sou, e ponto. Lógico, que pedalo na margem esquerda, como um zero à esquerda.

Júlio: “Não sou cicloativista, mas uso a bicicleta como meio de transporte”

Aproveito e reproduzo a reflexão do mestre Odir, sobre o fim do cicloativismo:

(…)

o JP, um amigo meu, esteve há algum tempo atrás em amsterdam, cidade conhecida pela imensa profusão de bicicletas. procurou o ciclo-ativismo por lá e não achou nada. reclamou com um holandês que respondeu: “ué? ativismo? pra quê? mais bicicletas ainda? precisa?”

é, de fato não precisa. o joão lacerda sempre repete que sonha com o fim do ciclo-ativismo. de fato, eu também. no dia em que eu não precise explicar pq prefiro usar a bike, pq uso camisetas ultra-coloridas em vez de usá-las pretas como de fato preferiria (mas a camiseta amarela me deixa mais visível no trânsito), ou pq bicicleta não é brinquedo e não, eu não sou uma criança grande e nem todos meus amigos são retardados (ok, alguns são mas não andam de bike), aí sim saberei que a coisa engrenou, que a cidade melhorou e corrigiu a rota rumo a um progresso sadio.

claro, hoje parece uma utopia. não é, tanto que muitas cidades no mundo já o fizeram. mas isso depende estrutura, isso depende de governança, depende de uma boa administração pública dos recursos existentes e da escolhas corretas por parte do poder público.

peguemos um exemplo trágico. há uma semana a mídia se ocupa com a tragédia ocorrida na região serrana do rio de janeiro, em razão das fortes chuvas (fortes mas não excepcionais, chuvas fortes temos todos os anos, as médias históricas precisam ser atualizadas, e temos chuvas assim fortes pelo menos uma vez por década, portanto precisamos estar preparados para elas). no momento em que escrevo esse post já se fala em mais de 630 mortos. mas uma das cidades atingidas por ali, pequena, chamada areal, não registra nenhuma vítima. pq, não foi afetada? foi sim, areal teve uma grande destruição. mas areal beneficiou-se de uma medida simples mas competente do poder público: os alertas de que a destruição estava a caminho. a população conseguiu escapar para locais mais altos. não há mortos, portanto.

há uma tendência generalizada de atribuir à ira divina todas as catástrofes que nos acontecem. roberto da matta escreveu um livro interessante chamado “fé em deus e pé na tábua”. o motorista gosta de rezar e daí dirige de qualquer modo. se morre, é claro, é a “vontade divina”.

uma vez ouvi de um velhinho judeu aqui de são paulo uma historinha interessante:

recomeça o dilúvio. mordechai era um judeu cumpridor dos mandamentos bíblicos. bem ortodoxo no cumprimento das regras. a água começa a subir, jacob passa num barco e grita:

– bora mordechai! a água tá batendo na bunda! sobe no barco aí, mano!

(sim, no meu relato esses judeus de algum shtetl da polônia do século XVIII falam que nem os manos).

– não, jacob! eu sigo as regras, ha-Shem vai me salvar! não vou nesse bote cabritado que vc tem! (detalhe, a voz do mordechai é igual a do chris rock)

e o jacob foi embora, xingando o mordechai de burro. mas apareceu outro conhecido do mordechai, oferecendo ajuda, era o moshé.

– bora, mordechai! se liga, mano, a água tá subindo, tu vai ficar boiando que nem presunto na guarapiranga!

e o mordechai, turrão, recusa:

– sai pra lá, seu infiel! moshé, não entro no teu barco impuro! vc roubou esse barco aí que eu tô ligado! sai pra lá!

moshé sai remando e xingando de burro o mordechai, mas chega um outro amigo do mordechai, o schlomo:

– vamu, mordechai! se liga no movimento que o barato é louco e o processo é lento! bora vazá! se liga, pula aí e pára de tirar chinfra!

e o mordechai reclama:

– sai pra lá, schlomo! te conheço! eu sei de quem era esse barco aí, era daquele mano que tu apagou com 3 pipocos! sai pra lá, ladrão sangue ruim!

– quer saber, mordechai, se vira aí. sai nadando sozinho, seu vacilão! – e o schlomo foi embora.

e a água subiu, e o mordechai que nadava tão bem quanto o maluf é um político honesto, morreu afogado.

lá do outro lado, mordechai consegue uma audiência com D-us, pra reclamar. chega lá na frente do altíssimo extremamente irado:

– pô ha-Shem, mó vacilo, né?  mó vacilada! custava me puxar com a mão? eu sempre rezei, segui todos os mandamentos, os 10 do monte os 613 do deuteronômio, sei mais os mandamentos de cor que do que cadeeiro sabe o código penal! pergunta aí pra ver! e tu dá uma vacilada dessa?

e então ha-Shem, com sua voz tonitruante como a do isaac hayes, ao som da música celestial (segredo que conto pra vcs, no céu a trilha sonora é groove, e pra entender o que é isso e ouvir o isaac hayes, clique aqui):

– eu, vacilão? se liga mordechai! baixa bola aí,mano! cê ficou vacilando lá, ficou moscando quando eu te mandei 3 barcos de resgate! se liga mané! agora tu vai saber oque é purgatório, seu trouxa!

essa é só uma historinha ilustrativa da postura que o brasil tem adotado nas últimas décadas, que perspassa toda a sociedade brasileira. do governante ao morador mais pobre. antes se atribuía tudo à ira divina, hoje é o aquecimento global. ok, aquecimento é fato. mas vamos ficar parados esperando o mundo acabar?

os barcos nos são mandados. pensem na quantidade de advertências que o governo de são paulo tem recebido nas últimas décadas sobre a questão do trânsito, a impermeabilização da cidade, a opção burra pela carrocracia. há mais de dez anos ouço especialistas que batem na tecla de como a desocupação do centro da cidade é perniciosa: cria um espaço vazio na noite, que facilita a formação de cracolândias. desperdiça a estrutura pública: escolas do centro fecham por falta de alunos, enquanto na periferia elas faltam. acaba-se por ser necessária a construção de novos hospitais em locais mais longínquos, quando já existe uma estrutura central disponível. acaso o hospital umberto primo não fechou?

em português claro: a administração pública vacila. vacila. vacila. e claro, tragédias, inundações, soterramentos, tudo é questão de tempo. a ineficiência da fiscalização das construções a longo prazo gerará desabamentos. a incapacidade de restringir o uso do carro força a realização de obras caríssimas cuja verba poderia muito bem ser aplicada no transporte público. o não investimento adequado na educação cria uma bomba-relógio no futuro: falta de escolaridade adequada gera desemprego futuro, problemas de saúde, diminuição de qualidade de vida, insatisfação.

o brasil sofre de desestrutura crônica. cada real investido em prevenção economia de 7 a 14 reais gastos no conserto. e isso em qualquer setor da vida nacional. da saúde à educação, do trânsito às catástrofes naturais.

sim, falta estrutura. exemplo. querem coisa mais burra do recolher doações de água mineral em manaus para levar a nova friburgo? qual o custo disto? só o gasto em combustível no transporte permite que se compre essa água no ri de janeiro mesmo e ainda com economia. afinal, um litro de água pesa exatamente um quilo. transporte custa!

mas há a desestrutura em razão da falha sistêmica. devemos lembrar que a falha da máquina faz parte do seu sistema normal…. aliás, são paulo tem gente morando no jardim romano, no jardim pantanal pois há especulação e portanto os pobres não podem morar na região central. aliás, ninguém mais mora, até que a área seja “revitalizada” e portanto haja mais especulação. sim a degradação de certas áreas é proposital.

deixemos de ser inocentes. a estrutura pública não funciona pois assim gera mais lucro. vejamos o caso do transporte público paulista. nem perco tempo comentando o aumento para 3 reais a pssagem. sim, 3 reais. o ônibus mais caro do brasil. mais que um pão com  manteiga e um cafezinho em muita padoca da periferia. acho que ninguém fez um comentário melhor que o sakamoto, sobre o assunto. tá aqui, leiam.

deixemos de ser ingênuos. os dados estão aí. os governos, principalmente municipais e estaduais, ligaram o boão de “foda-se” há muito tempo. jogam pelo pão e circo. no estado de são paulo agora chegou ao mercado a classe méRdia ascendente e emburrecida pelas décadas de ensino público ruim. não é à toa que tantos imbecis se endividem por 70 meses pra ter uma lata fedorenta e assassina chamada carro. sim, hoje eu olho com um misto de pena e ódio pra cada dono de ecosport, de pajero, de l200, de tucson, qeu acha que seu prazer pessoal, sua vontade de afirmar-se socialmente permite que ele contribua pra morte de cerca de 4000 pessoas ao ano em são paulo em razão dos problemas de poluição, causados ou agravados por ela.

claro, essa postura é estimulada. cada vez que passa um reclame na tv, vemos essa postura reforçada. compre seu carro novo, seja feliz, mesmo que vc seja um dos causadores das chuvas e outras catástrofes que hoje acontecem. sim, assim como alguns comemoram dando tiros pra cima – e produzindo balas perdidas – outros poluem. constroem mansões de luxo em encostas. expulsam pobres de bairros centrais. consomem exageradamente. enchem o mundo de garrafas pet, fumaça preta, pedaços de plástico, entulho, lixo.

eu não pertenço a esse mundo em falha permanente. nem meus amigos. hoje passei uma tarde divertida conversando sobre bicicletas, trocando peças usadas, trocando idéias, aprendendo muito. mas nós, que não estamos destruindo o mundo ainda somos poucos, e ainda corremos o risco de sermos dizimados como foi a márcia prado na avenida paulista, há exatos dois anos e dois dias. eu mesmo hoje tomei uma fechada enquanto voltava pra casa. claro, uma tucson preta, um desses carros do mal.

pena, pena mesmo. sinto pena dos 630 mortos nas tragédias do rio, nos desabrigados de minas, nos feridos pela ação criminosa da PM paulista na repressão a um protesto contra o aumento das passagens de ônibus. sinto pena dos que lutamos por um mundo onde ser cidadão seja mais importa do que ser consumidor. mas não, o mundo segue em desmanche.

em tempo. apesar de tudo, há mais gente de bike na rua. hoje uma das ciclovias de lazer de são paulo, mesmo fechada foi ocupada por ciclistas. pena que seja de lazer. devemos brigar por mais espaço. não acredito mais em conversas…. como disse a renata falzoni dia 07/12 na câmara municipal, nas gavetas da daministração pública repousam projetos lindos….. chega de projetos, precisamos de ações, e dos ciclistas. ciclista, perca o medo, discuta e, se for o caso, chute a porta de quem te fecha. ocupe seus espaços. filme as ilegalidades.  denuncie.

e claro, fiquemos atentos à má ocupação da cidade. são paulo possui inúmeras áreas de risco. apenas ainda não pegamos uma chuva tão forte, e a cidade está tão impermeabilizada que tudo direciona-se ao tietê em minutos. já passou da ora de quebrarmos o asfalto e plantarmos árvores no lugar. eu adoraria ver baobás no meio da avenida paulista, sequóias no vale do anhangabaú, jequitibás no meio da 23 de maio, jacarandás na berrini. carros abandonados com plantas crescendo. apenas bicicletas nas ruas, e as pessoas felizes. não mais ghost bikes, não mais contagem de corpos, não mais doenças por ignorância. que todos os ativismos um dia se tornem desnecessários. um dia seremos desnecessários, espero por isso.”

e você?

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Vaaaaaai coisa gostooooosa

#fimdaviolenciacontramulher :

Abaixo, o relato da Marina Chevrand, no blog das pedalinas.

Assédio no trânsito não é assunto novo por aqui. Agressões verbais todas nós, mulheres que pedalam, provavelmente já sofremos.

Mas vem cá, ja imaginou estar subindo uma avenida (a sumaré, no caso), em pleno domingo, feliz e contente por  ter poucos carros na rua, e perceber que um carro reduz a velocidade e sentir uma palmada bem dada na bunda seguido de um “vaaaaai coisa gostooooosa” e várias risadas de um bando de playboys?

Nunca imaginou? Nem eu. Mas isso aconteceu comigo, mas o carro preto de placa 2416 e a cara do mauricinho orgulhoso de seu ato machão-ogro de camisa amarela olhando e rindo de mim no retrovisor, eu nunca vou esquecer.

Pra mim, um cara que faz algo desse tipo, é o mesmo que estupra e bate na mãe. O caráter (zero) e a certeza de que o mundo gira em volta do seu pinto são características comuns a esses seres desprezíveis.

Poderia fazer uma lista do que senti ao tomar o tapa: ódio, vergonha, humilhação, revolta, raiva, etc, etc, etc. E todos esses sentimentos juntos me deram forças nas pernas para pedalar na velocidade maior que eu pude com o intuito de alcançar o 2416, 2416, 2416 – repetia para mim mesma.

Rá! Lá estavam eles, distraídos e cantando esperando o sinal verde. Cheguei devagarzinho sem ser percebida pela direita. Com muita vontade, cuspi e vomitei na cara do de amarelo, arremesei-o para fora do carro, chutei bem no meio do seu saco. Não tive pena da sua cara de pavor, me pedindo peloamordedeus para parar. Não parei. Seus amigos-super-machões, se envergonharam do amigão que dá tapas em bundas de mulheres estar apanhando de uma de suas vítimas, e fugiram, deixando-o para trás.

Obviamente esse é o final que minha criatividade alimentada de ódio e revolta produziu.

O final real é bem diferente disso: Infelizmente (ou felizmente) todos os sinais estavam abertos, não tinha congestionamento e os perdi de vista. Me recolhi no meu suor e humilhação e engoli seco para conseguir terminar o dia sem matar um.

(…)

Desculpem o relato meio pesado para uma segunda feira. E sorte pra todas nós, que vamos pedalar muito ainda durante toda a semana. Que pessoas como essas não cruzem nosso caminho e não estraguem nosso dia (e muito menos nossa dignidade).

Marina Chevrand

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“não quero papo” ou “vá se f*”

#fimdaviolenciacontramulher : Cotidianamente, sofrem toda a sorte de violência nas ruas de nossas cidades. Leia abaixo o relato da Evelyn.

Desculpas…

Não é fácil ser ciclista mulher no trânsito dessa cidade. Não é fácil mesmo. Além de todos os problemas como falta de espaço, falta de respeito e educação, a mulher ainda enfrenta uma coisa horrível chamada assédio, e que, na minha opinião, beira a um dos mais baixos e sujos tipos de desrespeito a uma pessoa.

Quase todo o dia tenho que me conformar com um “aí sim, hein?!” (esse já virou clichê!), “oi princesa”, “que coisa linda”… e por aí vai. Até aí eu aguento e se estou em dias bem humorados, até dou uma risada simpática como resposta. Outras vezes mostro aquele dedo para dizer “não quero papo” e outras grito um sonoro “vá se f*” e sigo pedalando. Mas, uma hora a gente perde todo o tipo de paciência. E a minha hora chegou hoje.

Nove horas da manhã, indo para o trabalho, na Rua Simão Álvares, entre as ruas do Pinheiros e Arthur Azevedo, em uma subidinha me aparece uma kombi escrita Horti-Fruti com quatro rapazes dentro. O passageiro do banco da frente enfiou o rosto para fora para jorrar algumas frases obscenas que não tenho coragem de repetir aqui. Eu poderia seguir o meu caminho, estava atrasada, pra quer dar atenção a estes cabeças de bagre? Mas hoje a minha tolerância se esgotou.

Obviamente, segundos depois dos desaforos, o semáforo fechou, a kombi parou no trânsito e eu passei por eles novamente. Mais frases impossíveis de engolir. Com toda delicadeza, parei a minha bike bem em frente a kombi, desci dela, abri a minha bolsa, peguei a minha chave, destravei a minha U-Lock do quadro, tranquei ela novamente, mas agora segurando-a em minha mão, virei para o cara da kombi, mostrei a U-Lock e perguntei:

“Quer perder o retovisor?!”.

Claro que ele disse NÃO!

Então pede desculpas

Desculpas (sorriso cínico, mas muito cínico no rosto)

Pede desculpas sem esse sorriso cínico

Desculpas (com o sorriso cínico na cara)

[detalhe… o trânsito todo esperando!]

Se você não tirar esse sorriso cínico da cara eu vou estraçalhar esse vidro da kombi.

[Aí o motorista interviu]

Como assim moça?! Vai destruir nossa kombi?! Pelo amor de Deus não faz isso, desculpa, desculpa, desculpa…

O safado que tinha falado as obscenidades ficou perplexo. O sorriso cínico sumiu e virou uma verdadeira cara de espanto e medo.

Ela dizia “desculpa, pelo amor de Deus, essa kombi é do trabalho, não quebra o vidro não, desculpa”. E pra melhorar, parou um motoqueiro do meu lado pra saber se estava tudo bem e se eu precisava de ajuda. Aí os caras ficaram com mais medo.

Eu dei um sermão nesses idiotas, falei, gritei, esbravegei que isso era para eles nunca mais insultarem uma mulher na vida deles.

O idiota ainda replicou dizendo que falou aquilo porque me achava linda, estava me elogiando e ainda completou “mas também agora pra mim você é feia!”. E eu continuei gritando, disse pra ele que elogio de gente do tipo dele pra mim é ofensa, tenho nojo, e que se ele não calasse a boca ele ia perder o vidro.

Ele ainda disse mais desculpas, que eles eram trabalhadores, não mereciam estar passando por isso… e eu disse “também sou trabalhadora e também não mereço passar por isso”. Fui embora pedalando a mil por hora, com sangue nos olhos, com a revolta expressada em todos os meus movimentos. Tive que parar por alguns minutos para refletir sobre tudo aquilo, sobre toda aquela raiva.

Comecei a pensar nos olhares assustados destes caras da kombi, como se eu fosse uma pessoa armada, prestes a cometer um crime. E, realmente, eu estava armada. A U-Lock ali cumpria a mesma função que uma arma, um revólver. Mas quer arma mais dolorosa do que as palavras? Do que a falta de respeito? Isso é o que mais me machuca.

Sou contra atitudes agressivas. Não gosto disso. Mas também não consigo ser conivente com tamanha falta de respeito. Esse cara da kombi não desrespeitou só a mim. Desrespeitou a minha família que me educou, desrespeitou o meu namorado, desrespeitou a família dele, quem sabe até, a esposa e os filhos dele?!  Tá difícil engolir tamanho desaforo!

Já subindo a Teodoro, mais calma e concetrada no esforço físico e no trânsito, um carro passou bem pertinho de mim. Fiquei pensando “lá vem”. E veio um motorista homem, bem devagarzinho, que falou: “acompanhei tudo desde lá de baixo, você fez muito bem!”. Agradeci, ele foi embora, e fiquei contente em saber que mais pessoas reprovam a atitude do cara da kombi. Não que a minha estivesse totalmente correta.

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Leituras do Feriado

Além de pedalar, nossa mente tb ilustra-se.  Na cidade  de Sorocaba, teremos nossos momentos para as 7 leituras:

7roteiros

“O mundo visto a partir de uma bicicleta tem um ritmo só seu. Nenhum outro meio de transporte propicia a intimidade, a mobilidade e a simpatia oferecidas por uma bicicleta. A sensação de liberdade, o vento acariciando seu rosto e a certeza de que você é o dono do seu destino são algumas das primeiras sensações que a bike oferece”  José Antonio Ramalho

….

Do ciclonomade: “Vida de ciclista não é só pedalar, bem como a vida nômade é mais que simplesmente pular de um lugar ao outro. Desde junho passado minha rotina tem sido apreciar novos horizontes, ao lado de novas pessoas, os locais passando como instantâneos, quase fotografias.” (cont…)

……….

Feliz Cidade Feliz “(…) pegar a magrela e pedalar 100 km. Pode parecer loucura, mas tudo isso vale totalmente a pena quando no final você vê uma criança de uns dois anos de idade, em cima de uma bicicletinha minúscula, olhar para você e gritar: “menos carros, mais bicicletas”! ( cont…)

………

Falanstério: “alguns ciclistas/poetas não comemoram a liberdade (?) de um povo. Percorreram as ruas da “Paulicéia Desvairada” com o intuito de conhecer os locais que o escritor Mário de Andrade disse onde deixaria as partes do seu corpo depois que fosse para outra dimensão.”

…….

Feliz Cidade Feliz:Fomos ao Carlos Botelho pedalando – nada de barulhos de motor e fumaças de escapamento, apenas o silêncio do pedal, o cheiro de natureza misturado ao cheirinho dos vinhedos de São Miguel Arcanjo e nada de poluição.” (cont…)

……..

Aninha: “(…)Essa viagem para mim sempre foi um sonho que junto a muitos consegui realizar, encontrar todas as estações do ano em um só dia alcançar altitudes que nunca imaginei que conseguiria e pensar que até a noite de quarta-feira ainda não tinha certeza se iria ou não fazer a viagem, eu que já estava de bike nova ainda não tinha pneus, tudo foi uma realização.” (cont…)

……….

Falanstério: “O feriado de Tiradentes foi excelente. Uma bela trilha de mountain-bike no meio do mato. Um passeio ao lado da natureza e de três amigos. (cont…)

……..

Aninha: Cá entre nós os 45kms que ligam Caraguá a Ubatuba não são nada, mas depois de encarar a Estrada da Petrobras no dia anterior não vou negar que pensei 2 vezes antes de subir na bike.” (cont…)

………

Aproveite e leia a continuidade dos relatos, clicando no nomes dos blogs.

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O desabafo da Alexandra

Foto: Belle

Foto: Belle

Um desabafo

por Alexandra Peixoto, no blog Boca no Trombone

Amigas, amigos, leitores do blog e ainda os não-leitores.

Estou aqui para um desabafo.

Para quem não me conhece, um breve resumo da minha trajetória de vida: nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, numa família pobre. Estudei minha vida inteira em escola pública. Dei sorte de estudar no Pedro II, é verdade. Mas o fato é que minha família não tinha a menor condição de nos dar uma educação particular.

E os perrengues eram parte do dia-a-dia. Lembro que um dia um circo chegou no bairro, um circo daqueles bem pobrezinhos, e corri para pedir dinheiro para a Zezé, minha mãe. Nossa, eu chorava de um lado, porque não acreditava que ela não tinha dinheiro para que eu pudesse ver os palhaços e ela chorava porque não acreditava que estava negando isso às suas filhas. Era fato, não tinha dinheiro.

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Foto: Belle

Me lembro da primeira passeata que fui. Eu tinha 8 anos. Lembro de ver a Glória Maria (embora muito tempo depois tenha descoberto que ela não estava orientada a cobrir o evento de forma imparcial). A passeata, a primeira de minha vida foi o comício das Diretas Já. Minha mãe fazia cabides de crianças e pegou dois fios verde e amarelo e nos enfeitou a juba. Me lembro da Zezé emocionada e meus braços arrepiados com toda aquela gente.

Lembro dela votando no Brizola, no Darcy, quase sempre no PDT. Ela sempre foi esquerdinha, essa Zezé. E teve a morte do Tancredo. Foi um velório lá em casa.

Bem, posso ficar contando aqui muita coisa. Mas o fato é que minha história de vida é a mesma da maioria das pessoas desse Brasil. Sofrida, cheia de adversidades.

Foto: Belle

Foto: Belle

A questão é: o que isso tudo tem a ver com o blog?

Muitas pessoas já me perguntaram o por quê de tanta dedicação ao Boca no Trombone.

Sim, eu dedico muito tempo, tempo até demais, a esse projeto. Porque eu acredito que nós, cidadãos, temos um poder que não sabemos. Ou se sabemos, não usamos. Simplesmente não exercemos plenamente nossa cidadania. Nos conformamos apenas, na maioria dos casos, em sermos consumidores passivos, observadores apáticos e eleitores distraídos. Estamos desmobilizados, inertes. Nem sequer percebemos que todos os dias estamos sendo manipulados, via jornais e telejornais. E isso me incomoda, muito mesmo. Porque quando vejo os gregos quebrando tudo por causa da morte de um único jovem pela polícia, penso: por que isso não acontece no Brasil? Por que somos tão apáticos, tão passivos? Mino Carta já disse que temos ainda, no nosso lombo e na nossa alma, a marca do chicote.

Foto: Belle

Foto: Belle

Mas até quando vamos permitir a essa elite esse domínio, esse controle de nossa riqueza, produzida com o suor de nossos pais, avós e filhos? Até quando vamos permitir essa corrupção generalizada e esse pacto dos potentes? Até quando vamos nos conformar em ser chicoteados numa plataforma de trem?

Eu não concordo com as pautas dos jornais, eu não acredito na cobertura do Jornal Nacional, eu não uso a Veja nem pra limpar minha bunda, caso faltasse um papel higiênico. Ainda bem que chegou a internet e ainda bem que eu consigo peneirar o que é jornalismo confiável. Tem muita gente boa, muitos jornalistas que divergem horrores entre si, mas que a gente pode confiar que não vão manipular os fatos, não vão distorcer a verdade. E simplesmente, é isso que que desejo.

O fato. A verdade. Os dois lados da moeda. Sempre. Infelizmente essa ferramenta não chega ainda ao povão, de forma barata e com qualidade. E quando chega a galera está mais interessada em sites de relacionamento e de fofocas do que realmente em aproveitar todo o potencial que esse trem tem. Mas isso está mudando. Até o Lula vai ter um blog. Depois do Obama, até o nosso presidente percebeu o poder da internet. Por isso tem aquele senador do PSDB, o Eduardo Azeredo, o pai do mensalão.

Ele quer passar uma lei que vai controlar absurdamente o acesso à internet. Porque ele sabe, e as empresas que ele representa sabem o poder que esse troço tem. Eles acham que irão conseguir. Não irão. Não se daqui pra frente nos mobilizarmos para impedir esse controle. Porque essa ferramenta, a internet, ela é DEMOCRÁTICA, sacou? Ela nos conecta com o mundo!

Partindo desse princípio, o Boca no Trombone se transformou na minha válvula de escape, no meu prozac. Que televisão que nada, aquele monólogo colorido que não deixa as pessoas conversarem. Eu quero é me expressar, mesmo que aqui não tenha muitos textos meus (porque sou preguiçosa pra escrever).

E o jeito que encontrei de militar foi esse: divulgar textos, temas, assuntos e pautas que não tem espaço na grande mídia, esta que atende exclusivamente aos seus próprios interesses e aos de seus patrocinadores. Porque não interessa aos potentes que o povo se informe, que o povo saiba da verdade, nua e crua. Não, o que essa mídia faz é nos distrair. Que o povo se contente com as novelas e programas policiais enquanto estamos aqui a dividir o bolo grande, a bufunfa.

Sei que pego pesado nos temas aqui. Mas de amenidades o inferno já está cheio. Quero mais é botar fogo mesmo. Quero mais é que esses textos cheguem até vocês e que vocês, leitores, fiquem putos. Quero também mostrar o que de bom e positivo nosso povo tem feito para driblar as dificuldades. Eita povo criativo, sô.

Sempre que alguma idéia nova surge, alguma tecnologia social que aparece para melhorar a vida das pessoas, eu trago aqui pra vocês. Não tudo, porque não consigo saber de tudo, mas tô na busca. Na busca por um mundo melhor, não só pra mim, mas pra todos. Pros nossos filhos, netos, sobrinhos e todas as gerações futuras. Temos de deixar de ser egoístas e pensar que não temos um legado a deixar. E nosso legado pode ser pura destruição ou poder ser algo mais bonito, cheiroso, respirável, bebível, saudável.

E é nessa tecla que baterei incansavelmente: outro mundo é possível e o capitalismo, em profunda crise, está mais que na hora de morrer para dar a vez a outras possibilidades e definitivamente elas terão de incluir o bem-estar, a justiça, a igualdade e a sustentabilidade.

Foto: Belle

Foto: Belle

Por isso não abandonarei nunca esse jeito eco-chato de ser, porque, infelizmente, não temos outra saída. A saída é consumir menos, de forma consciente, pensando em cada resíduo produzido por nós. A saída é pensar coletivamente, e não individualmente. A saída é exigir uma democracia de verdade. É botar a boca no trombone, bater panela, ir para as ruas, exigir um governo do povo, pelo povo e para o povo. A saída é se informar mais e melhor, é desligar a TV, é cultivar a diversidade e o ouvir. É olhar para os lados, pra trás e pra frente e deixar de olhar exclusivamente para o próprio umbigo.

O Blog Boca no Trombone é para isso: uma ferramenta para os curiosos e inquietos que acreditam no saber e na informação como forma de revolução.

É isso, quem gosta do blog, por favor, ajude a divulgar. Uma vez no blog, a possibilidade de achar um sem número de sites e blogs legais é infinita.

Um grande abraço,

Alê

blog boca no trombone

outro desabafo: blog Feliz Cidade Feliz

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Chique e simples pedalar

Cycle Chic , “o termo foi cunhado pelos autores do Copenhagen Cycle Chic, em 2007″, que o blog Gata de Rodas, traduziu livremente:

• Eu escolho pedalar chique e, sempre que puder, escolherei Estilo em vez de Velocidade.

A. Hepburn

A. Hepburn

• Eu assumo minha responsabilidade em contribuir visualmente para uma paisagem urbana esteticamente mais agradável.

Ellen Page no Bikedrops

Ellen Page no Bikedrops

• Estou ciente de que minha mera presença na paisagem urbana irá inspirar outros sem que eu seja rotulado como “cicloativista”.

Jessica Alba no bikedrops

Jessica Alba no bikedrops

• Pedalarei com graça, elegância e dignidade.

Twiggy no Bikedrops

Twiggy no Bikedrops

• Irei, contudo, considerar minha bicicleta como meio de transporte e como um mero complemento do meu estilo pessoal. Permitir que minha bike chame mais a atenção do que eu é inaceitável.

butchcassidy

• Eu irei garantir que o valor total de minhas roupas sempre seja superior ao valor total de minha bicicleta.

Jackie O. no Bikedrops

Jackie O. no Bikedrops

• Respeitarei as leis de tráfego.

A. Einstein no Bikedrops

A. Einstein no Bikedrops

• Recusarei usar e possuir qualquer forma de “roupas de ciclismo”. A única exceção sendo um capacete – caso eu escolha exercitar minha liberdade pessoal e escolher usar um.

Audrey H. no bikedrops

Audrey H. no bikedrops

• Escolherei uma bicicleta que reflita minha personalidade e estilo.

Evelyn Araripe no São Paulo Cycle Chic

Evelyn Araripe no São Paulo Cycle Chic

• Colocarei acessórios de acordo com os padrões de uma cultura ciclística e comprarei, quando possível, um protetor de corrente, pedestal, guarda-saia, paralamas, campainha e cesta.

Verônica M. no Blog Gatas de Rodas

Verônica M. no Blog Gatas de Rodas

Leia agora o Manifesto Original:

Scout Niblett no Blog do TA

Scout Niblett no Blog do TA

Movimento das Bicicletas Lentas – Estilo acima da Velocidade.

1. Escolho ser um ciclista lento e irei pedalar em um ritmo agradável. Pedalarei de uma maneira tranqüila e casual, aproveitando a viagem e o ambiente pelo qual estou passando.

2. Estou ciente de que a minha simples presença na paisagem urbana irá inspirar outros.

3. Irei pedalar nos meus deslocamentos diários, incluindo ir ao trabalho, as compras e restaurantes.

4. Irei me vestir com roupas adequadas ao meu local de destino. Posso ir até mais bem vestido por estar de bicicleta.

5. Irei personalizar minha bicicleta de acordo com os padrões da cultura ciclística e minhas necessidades pessoais. Alguns ítens podem ser, protetor de corrente, descanso, paralamas, buzina, uma cestinha ou bagageiro.

6. Irei respeitar as leis de trânsito.

7. Irei pedalar com graça, dignidade e boas maneiras. Darei preferência aos pedestres nas ciclovias e cruzamentos com um sorriso no rosto e irei também agradecer aos motoristas quando eles derem preferência a mim.

8. Eu sei que pedalar é uma excelente oportunidade para praticar pequenas civilidades, socializar com a amigos e espalhar felicidade aleatoriamente para desconhecidos. Sendo assim irei cumprimentar pessoas aleatoriamente na rua.

9. Irei resistir a usar “vestimentas de ciclista” – sendo a única exceção um capacete, caso, no exercício da minha liberdade de escolha, eu queira usar um.

do The Slow Bicycle Movement, publicado antes no blog da Transporte Ativo


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São Paulo Cycle Chic

Gata de Rodas

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Apocalipse Motorizado

Feliz Cidade Feliz

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Quarta filmográfica

Depois da folia carnavalesca (alguns foram pedalar por estradas distantes e outros aqui ficaram) , diz a tradição, que na quarta-feira de cinzas é o dia de se preparar para a quaresma:  pedalar durante 40 dias, faça chuva ou sol.

Nos preparativos, um filme premiado: As bicicletas de Belleville.

bevillle

Sobre:

– Cinema e Carnaval no Gira-Me

CicloCarnaval:

  • Minas Gerais e Paraná

– Ecologia Urbana – Bons ( e ruins) ) exemplos

– Pedaleiro – segunda

  • Em Sorocaba

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– Feliz Cidade Feliz (I) (II) (III) (IV) ( V)

– Bruno Giorgi: Fotos, Vídeo (1) (2)

Cinema e Bicicletas

No Pedivela

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